Segurança e Saúde no Trabalho

O impacto da pandemia na Saúde Mental dos trabalhadores contratuais gerais

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A AESintra moderou um painel de oradores especialistas, online, sobre Saúde Mental e os riscos psicossociais a que os trabalhadores estão sujeitos. Luís Jerónimo – Diretor do Centro Local de Lisboa Ocidental/Sintra – ACT, parceiro de longa data da AESintra e Sónia Nogueira, diretora da AESintra, deram as boas-vindas.

Luís Jerónimo, começou por explicar que a área de intervenção do Centro Local de Lisboa Ocidental/Sintra é muito grande tem muitas assimetrias, o que dificulta o trabalho, porém, o Centro começou com sete inspetores e neste momento são vinte e sete, o que potencia a capacidade de intervenção junto das empresas. O inspetor continuou a sua intervenção, referindo que a ACT “não parou” desde o começo da pandemia e sempre que os inspetores não precisaram de estar no terreno, tiveram eles próprios em teletrabalho.

Cada vez existem mais pedidos por parte das empresas e “os trabalhadores estão a ser vítimas de atividades irregulares” e as “empresas vivem grandes dificuldades”. Luís Jerónimo adiantou que “houve de tudo; empresas que entenderam a nossa necessidade de intervenção, outras, contrariamente, acharam que não fazia qualquer sentido intervirmos e outras que prevaricam”. Na opinião de Luís Jerónimo a questão da pandemia veio agudizar um conjunto de riscos psicossociais, mas “a minha mensagem interna tem sido para os inspetores, apelando a que entrem disponíveis nas empresas, por forma a que elas estejam dispostas a colaborar connosco e por conseguinte a aplicar as medidas que surgem quase ao minuto”, continuou, “já há sinais de que algumas das medidas que surgiram vieram para ficar, sendo o teletrabalho uma delas” e, felizmente, muitas empresas e organizações já perceberam que não precisam de ter toda a gente no mesmo espaço físico para dar seguimento ao seu core-business. O inspetor confessa-se não apologista do teletrabalho a 100% – “as pessoas perdem ligação aos colegas e à empresa” -, sendo certo que, “se for feito com conta, peso e medida, pode ajudar”.

Os efeitos da Pandemia COVID19 nos trabalhadores”
Fátima Neves – Psicóloga Clínica
Fátima Neves começou a sua intervenção pela desvalorização sempre dada à Saúde Mental como sendo um assunto não prioritário, situação esta que se alterou exponencialmente com o aparecimento da pandemia; nas palavras da psicóloga; “colocou-nos na ordem”. Os dados demonstram que são as pessoas que estavam em situação de emprego “mais irregular”, as mais afetadas, porém, “todos nós fomos afetados pelas rotinas impostas pelo teletrabalho e pelo confinamento”.

Depressões, ataques de pânico e situações de ansiedade são as consequências mais visíveis dos efeitos da pandemia. Os estados de ansiedade são consequência do constante estado de alerta em que vivemos, porque as incertezas e as situações novas vividas foram muitas.

Vivemos num “ambiente ameaçador”, estamos sempre a postos para reagir e parecem ser estas as questões mais emergentes: “aquelas que as pessoas me trazem e que resultam em quadros depressivos, falta de sono, falta de controlo, muitas situações que podem acabar em momentos de desespero.

Em ambiente laboral, nas palavras da psicóloga, as questões emergentes, foram: “a habituação rápida às novas tecnologias, a conciliação entre as tarefas de casa, a família e o trabalho, a gestão do receio de não estar a corresponder ao trabalho exigido”. Fazer tudo no mesmo ambiente foi muito difícil de gerir, principalmente no 1º confinamento, concluiu Fátima Neves, porém, nem tudo foi negativo e muitas coisas melhoraram: “as famílias bem sustentadas encontraram novas forma de interagir e a pandemia veio revelar a importância de estarmos bem connosco para depois conseguirmos estar bem com os outros e com situações externas”. A psicóloga reforçou o modo como funcionamos em sociedade, acreditando “que vamos ficar mais atentos, mais empáticos e vamos valorizar mais a companhia de uns dos outros”.

“Os riscos psicossociais nas empresas”
Cristina Francisco – Centro Local de Lisboa Ocidental/Sintra – ACT
Para a inspetora Cristina Francisco, o último ano e meio ”foi avassalador para todos os profissionais” e também para a ACT que não só não parou como teve de acelerar, motivada pela quantidade de medidas extraordinárias lançadas todos os meses, essencialmente no que respeita ao teletrabalho, “residual em Portugal apesar de previsto e legislado de uma forma muito embrionária”. Em todos estes anos “não me recordo de ter acontecido alguma necessidade de intervenção sobre o teletrabalho” daí a dificuldade de ajuda às organizações no âmbito da avaliação e da prevenção dos riscos psicossociais.

O Pacto Europeu para a Saúde Mental e Bem Estar tem reconhecido, principalmente nesta última década, as exigências em constante evolução e as pressões cada vez maiores no local de trabalho e incentiva os empregadores a implementarem medidas adicionais e voluntárias para promover o bem-estar mental”, sendo que, “os riscos psicossociais são definidos como sendo aqueles aspetos da conceção e da gestão de trabalho, contexto social e organizacional, que têm o potencial de causar danos psicológicos ou físicos“. Cristina Francisco adiantou aos presentes, com base em indicadores europeus, que mais de metade dos trabalhadores da União Europeia relatam que o stresse é comum no seu local de trabalho.

Durante a pandemia houve uma tendência para acentuar os problemas de saúde mental no local de trabalho, e o aumento dos riscos psicossociais pode estar ligado à conceção, organização e gestão do trabalho, mas também à digitalização e à evolução para o modelo de trabalho remoto.

A inspetora salientou, no contexto da saúde mental, quais as principais mudanças trazidas pelo impacto da pandemia por Covid-19 no contexto laboral, que afetaram os trabalhadores. A primeira foi efetivamente a incerteza quanto ao futuro, seguindo-se a pressão da digitalização e o aumento exponencial do teletrabalho. A adaptação súbita às novas tecnologias, às novas formas de trabalho e às novas formas de relacionamento refletiram-se, em muitos casos, no isolamento; um dos riscos psicossociais. A conciliação com a vida profissional e pessoal, agravada pela atenção necessária dada aos filhos, foi um dos impactos mais referidos.

A ACT foi chamada a intervir em algumas situações de pressão nas unidades de saúde e cuidados sénior, trabalhadores estes de serviços essenciais, devido ao prolongamento de jornadas de trabalho/receio de contaminação, protagonizados por alguns empregadores que “exigiam” que os funcionários não saíssem das unidades de tratamento/institucionalização, ou devido a solicitações para fazerem turnos seguidos; situações que resultaram na exaustão extrema dos trabalhadores.

A inspetora deu conta aos presentes dos fatores a ter em conta para uma verificação do ambiente e organização do trabalho que possam prevenir os riscos psicossociais a que os trabalhadores estão sujeitos, situações que podem surgir ao longo do percurso profissional de qualquer um. A oradora referiu que os empregadores/chefias podem e devem estar envolvidos, com vontade de implementar políticas de avaliação do risco.
Questionada sobre o papel da ACT, entre o primeiro e segundo confinamento, a inspetora referiu que no primeiro, existiram mais locais de trabalho encerrados, mas com a implementação obrigatória do teletrabalho, no final do mês de outubro de 2020, as empresas foram forçadas a adaptar-se e no 2ºconfinamento tudo esteve mais preparado, desde os meios de prevenção até ao nível tecnológico, o que trouxe mais tranquilidade.

“Como gerir os efeitos da Pandemia COVID19 nos trabalhadores – Boas práticas da SCMS
Isabel Castelo – Santa Casa da Misericórdia de Sintra (SCMS)
Isabel Castelo, psicóloga da SCMS, iniciou a sua apresentação em narrativa livre, recuando a março de 2020, altura em todas as pessoas, de forma abrupta, ficaram sujeitas a uma situação de ameaça externa “percebemos que as coisas podem acontecer a todos e no mesmo momento temporal e o medo, sempre presente, acompanhou as várias fases do processo de adaptação à pandemia”. A psicóloga trabalha na área clínica da SCMS e apoiou os recursos humanos da instituição ao longo de todo o período pandémico. Destacou o papel organizador das chefias de departamentos considerados essenciais, particularmente o serviço de apoio domiciliário e o apoio alimentar e social, ambos em contínuo funcionamento presencial.

 “as chefias, a direção e a administração da instituição foram fundamentais na forma como tranquilizaram as equipas, mostrando consistência na adoção das medidas previstas no estado de emergência, como sejam o encerramento dos serviços não essenciais, a definição de planos de contingência e rotinas seguras para os serviços essenciais”.

Foi considerada prioritária a identificação de medidas de proteção de todos os colaboradores e o processo decorreu em relativa harmonia, apesar do medo do vírus e do clima de incerteza e insegurança. Sabe-se agora que outra das práticas implementadas, com resultados positivos, foi a estreita colaboração e comunicação sempre mantidas com as famílias dos utentes apoiados e com a própria equipa “estivemos todos muito próximos, num clima de entreajuda”.

A possibilidade de “conversar sobre…,” foi sempre defendida, de forma a prevenir eventual sofrimento emocional, como seja a vivência de alguma “culpabilidade por poder levar o vírus para casa ou de não estar a acompanhar os filhos em casa, no regime de telescola, quando o resto da sociedade estava”. Foi notório na equipa de trabalhadores essenciais, o sentimento de missão: “nunca recusaram trabalho e sentiram-se sempre muito acompanhados pelas chefias…sentiram-se seguros também ao nível dos equipamentos de proteção individual”.

No que se refere aos níveis de ansiedade e outros problemas de saúde mental, como resposta à vida em confinamento, a oradora continuou: “conhecemos os níveis de stresse trazidos pelo teletrabalho, pela possível perda de rendimentos, a dificuldade na gestão das relações familiares, na separação de espaços virtuais dentro da própria casa, entre muitos outros”.

Isabel Castelo, destacou o papel das comunidades e a entreajuda, exemplificando com a disponibilidade do próprio setor da Cultura, que tão bem compreendeu como o seu contributo seria fundamental para a sobrevivência do dia a dia das famílias. Ainda se assistiu a uma mobilização muito importante da Ordem dos Psicólogos Portugueses, bem como à generosidade de técnicos de saúde mental e sociedades especializadas que disponibilizaram o seu tempo, gratuitamente, para atender pedidos de ajuda psicológica. Também a Santa Casa da Misericórdia de Sintra criou uma linha de apoio psicológico na crise que esteve sempre disponível durante todo o primeiro confinamento, aberta a todos, não só aos seus colaboradores e utentes.

Debate
Uma das questões levantadas, foi referente à obrigatoriedade de consulta aos trabalhadores, como instrumento de avaliação dos riscos psicossociais. Olga Figueiredo, secretária-geral da AESintra e protagonista da dúvida, questionou se as empresas estão, ou não, a retirar valia dessa consulta. Cristina Francisco (ACT), reforçou que essa consulta é obrigatória existindo até contraordenação para a não realização. Esse documento é um dos solicitados aos empregadores numa ação de verificação, tendo especialmente em conta, as medidas tomadas em contexto de pandemia. A consulta pretende que os trabalhadores digam de forma direta ao empregador que opinião têm sobre as medidas, se existem falhas ou não. É uma consulta obrigatória e tem de ser produtiva.

Outro dos assuntos levantados durante o debate, foi a forma como a avaliação dos riscos psicossociais está a ser feita, na opinião do participante, deveria ser realizada por psicólogos e não por técnicos de Segurança do Trabalho. A inspetora da ACT, repetiu que a mesma devia ser feita por uma equipa multidisciplinar. Acrescentou que a ACT solicita avaliação de riscos que contemple os riscos psicossociais e as empresas que a dinamizem devem socorrer-se de técnicos especializados: “os riscos psicossociais vão muito mais além do que um simples questionário que deve ser feito por técnicos.

Edição 33 – JEL – julho/agosto 2021

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