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Restaurante da Adraga

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Agraciado em 2007 com Medalha de Mérito Municipal – 1º Grau Ouro

Susete Torres começou por mostrar-nos as fotos expostas no Restaurante da Adraga; uma delas prendeu o nosso interesse. Trata-se de um retrato do início do século XX, altura em que a Rainha D. Amélia descia da Serra à Costa, para ali, na praia da Adraga, desfrutar de banhos de mar.

No areal montava-se uma grande mesa corrida para servir faustosos piqueniques reais, tendo sido num desses momentos que a Rainha quis provar o arroz de mexilhão com carapaus fritos, confecionados pela bisavó da Susete, que ficava no local onde hoje é o restaurante da Adraga, à espera do marido que ia à pesca e trazia peixe para servir ali mesmo. A 1ª geração do Restaurante da Adraga começa a ser desenhada nessa altura, por puro convívio. Entretanto foi juntando mais pessoas da terra, pescadores e agricultores, todos contribuintes de produtos alimentares.

Na década de 50, já na 2ª geração, o restaurante passa para a gestão do pai da Susete que começa a explorar uma “barraquinha” assente em chão de areia, com telhado feito de canas que ela própria ajudava a cortar. As condições do local foram melhoradas ao longo dos anos, por força das intempéries que todos os invernos deixavam o restaurante em mau estado, e por imposição dos quadros legais a que os restaurantes estão sujeitos. A Susete tem 71 anos, já conta com os seus dois filhos para ajudá-la – o Jorge e o Pedro – e confessou: “ passei por muitos sacrifícios, mas tenho uma raiz tão grande que, mesmo em momentos de grande cansaço, não consigo deixar isto”.

O Jorge, filho mais velho da Susete e 4ª geração do Restaurante Adraga, trabalha no restaurante a tempo inteiro, há pelo menos 30 anos: “naturalmente que há sempre uma pressão familiar, mas ainda hoje tenho dificuldade em apontar outro caminho profissional que não fosse este”. Estudou na Escola de Hotelaria do Estoril porque teve necessidade de procurar especialização. Quanto à entrada da 5ª geração na gestão do restaurante, o Jorge, com a experiência de vida que já partilha, disse-nos: “respeito muito quem não quer fazer vida na área da restauração – é muito duro – e cada vez há mais exigências e menos direitos. “Não vivo nem quero viver a vida dos meus filhos, nem a dos meus sobrinhos. Se eles quiserem fazer parte deste negócio familiar e iniciar a 5ª geração da família à frente do restaurante, ficarei bastante agradado, desde que essa decisão não interfira na felicidade de cada um deles”.

Hoje, apesar das oscilações sazonais, trabalham no restaurante da Adraga cerca de 18 funcionários o que na opinião do Jorge “é um encargo financeiro muito grande”, mas a exigência do trabalho a isso obriga numa altura em que a hotelaria deixou de ser encarada como um trabalho de recurso. A geografia privilegiada, a cozinha simples, mas de grande qualidade e o trabalho imenso de melhoramento do espaço que tem vindo a ser feito ao longo dos anos, é, na opinião do Jorge, a receita perfeita para o sucesso deste restaurante, ao ponto do Jorge ter recebido um convite para estar no Mercado da Ribeira, em Lisboa, que decidiu recusar porque a descentralização do conceito podia ser prejudicial ao negócio.

JEL janeiro/fevereiro 2020
Sónia Firmino

Diretora Jornal Economia Local (JEL)

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