Especial edição

Vinhos de Sintra para lá do incontornável “Ramisco”

Sónia Firmino
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A AESintra entendeu colocar-se ao serviço dos produtores de vinho da região de Colares. Para lá da “joia da coroa”– o Colares DOC – proveniente de vinhas em chão de areia, com as castas Ramisco (tinto) e Malvasia de Colares (branco), existem excelentes vinhos de chão rijo (argilocalcário) produzidos em Sintra. A ausência desses vinhos nas cartas dos hotéis e restaurantes da região deve ser um assunto que mobilize os agentes económicos.

A região vinícola demarcada de Colares tem Denominação de Origem Controlada (DOC) desde 1908 e compreende as freguesias de Colares, São João das Lampas e São Martinho (União de Freguesias de Sintra). É a região demarcada mais ocidental da Europa Continental e a mais pequena região produtora de vinhos tranquilos do país. A origem dos vinhos Colares remonta a 1255, quando D. Afonso III fez a doação do Reguengo de Colares, obrigando a plantar aí videiras vindas de França. São vinhos “diferentes” e “únicos” e na designação DOC só cabem os que são provenientes de vinhas plantadas em chão de areia. Ramisco é a casta de uvas tintas portuguesa, autóctone da região, plantada em pé-franco e solo arenoso, livre de filoxera quando o vírus dizimou
grande parte das vinhas à escala mundial, em meados do séc. XIX. Esta casta acabou por marcar a imagem de marca do DOC Colares tinto. O Colares pode ser branco e a ele está associada a casta Malvasia. O vinho tinto Colares é composto por de 80% (mínimo) de uvas da casta Ramisco e 20% de outras castas e esta predominância acabou por, naturalmente, determinar a nomeação informal do próprio vinho. Expressões como: “bebi um excelente Ramisco”, significam, em bom rigor: “bebi um excelente Colares Tinto”.

Portugal está dividido em 14 regiões vinícolas demarcadas, cada uma delas corresponde a uma Indicação Geográfica (IG), dentro das quais se encontra, pelo menos, uma DOC. Todos os vinhos produzidos no concelho de Sintra, integram a Região de Vinhos de Lisboa, região esta que abrange a totalidade do distrito, com exceção do concelho da Azambuja, o concelho de Ourém e alguns concelhos do distrito de Leiria. A Região de Vinhos de Lisboa tem uma forte tradição vinícola e agrega alguns dos DOCs mais reconhecidos nacional e internacionalmente, entre os quais o “Colares”. Todos os outros vinhos de chão rijo produzidos em solo sintrense são considerados vinhos regionais de Lisboa.

Esta contextualização foi necessária para enquadrar a opinião de alguns dos produtores de vinho produzido em solo sintrense. O JEL visitou alguns desses produtores que reconhecem em Sintra a existência de condições únicas no país – solos arenosos, microclima, salinidade, ventos húmidos do Atlântico – para a produção de vinhos. Na prática, esses produtores desejariam que esta diferenciação colocasse os vinhos produzidos em Sintra sobre outra designação e confessam que o DOC Colares é a ”joia da coroa” da região, devendo ser, indiscutível e merecidamente assumido como tal, mas a designação geográfica tem criado obstáculos à implementação e
comercialização de outros vinhos que, por não serem provenientes de chão de areia, não podem ser assumidos como sendo de Colares.

Colares, por si só, mais do que um DOC é também um forte argumento de venda e de divulgação quando a semântica da palavra remete paratoda uma região. Argumento que não pode ser utilizado na estratégia de comunicação e marketing dos “outros vinhos”. Este impedimento legal coloca esse “outros” vinhos – também eles sujeitas às condições únicas de clima (exceção dos solo arenosos) – no mesmo pacote de vinhos de toda a região da Estremadura, agora designada por região de Lisboa. São assim vinhos regionais de Lisboa quando na prática são provenientes de vinhas em solo sintrense e produzidos na geografia de Sintra. Geografia, clima e história que resultam em vinhos distintos.

O Colares de chão de Areia ocupa hoje uma área de cerca de quinze hectares, com produção anual a rondar os 7 a 8 mil litros, tendo em conta a que entra na Adega Regional de Colares. Neste total de produção não está incluída a produção da Fundação Oriente. Estes números estão longe dos 4 milhões produzidos na década de 30/40 do século passado, é certo, mas estão em fase ascendente e com “alguns novos investimentos na região”, conforme nos adiantou o engº José Baeta, produtor de vinho e proprietário da Adega Viúva Gomes, em Almoçageme. A produção atual destina-se, na sua maior parte, ao mercado externo. Segundo o engº José Vicente Paulo, presidente da Adega Regional de Colares “mais  houvesse mais se produzia e comercializaria”. Os vinhos produzidos em Colares e nas restantes freguesias já mencionadas, de chão rijo, estão muito bem cotados e a
produção já ultrapassa os 100 mil litros anuais.

JEL29 julho/agosto 2020
Sónia Firmino
Sónia Firmino

Diretora Jornal Economia Local (JEL)

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