Colares Especial edição

“… queremos suportar os nossos investimentos de uma forma sustentável”

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Legenda foto: Ana Limpo (AHBVC), Paulo Teixeira e Joaquim Viegas Simão (AESintra), Alcino Alves, Pedro Louro e Gonçalo Louro (AHBVC) e Sónia Firmino (AESintra)

É a mais antiga corporação de bombeiros em Sintra e está sediada em Colares desde 1890. Nela estão heróis sintrenses da chamada primeira linha da frente, alavancados por um Plano Estratégico assente “numa clássica reflexão empresarial”. Urge trabalhar para a sustentabilidade financeira desta e de todas as associações humanitárias do país. A carolice, por si só, deixou de ser suficiente! É necessário Organização Empresarial.

A AESintra visitou a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Colares (AHBVC), onde foi muito bem recebida, e esteve à conversa com Alcino Alves e Pedro Louro, respetivamente, Presidente da Direção e Comandante. Sabíamos de antemão que esta corporação de bombeiros centenária tinha ao leme diretivo um economista com um MBA do ISEG, que conseguiu agregar em seu redor uma equipa multidisciplinar, e este foi o impulso necessário para a pertinência do tema desta edição do JEL: tendo em conta a dinâmica diária da AHBVC, entidade sem fins lucrativos, estamos perante uma organização de índole empresarial?

A AHBVC serve uma população que oscila entre as 12 mil e as 22 mil pessoas, dispersas por três freguesias; Colares, União das Freguesias de Sintra e União das Freguesias de S. João das Lampas e Terrugem, e conta com 55 bombeiros entre profissionais e voluntários, com uma média de idades entre os 30 e os 35 anos. Alcino Alves começou por nos adiantar ter sido criado um Plano Estratégico 20/30, aquando da entrada da presente Direção, “desenhado com base numa clássica reflexão empresarial que nos ajudou a fundamentar a nossa estratégia de intervenção interna”.

Pedro Louro, Comandante experiente, revelou que o “nosso grande objetivo é dar cada vez melhores condições aos bombeiros, em primeiro lugar, e logo a seguir trabalhar para a proximidade com a própria comunidade que foi extraordinária durante o período pandémico, numa altura em que foi necessário fechar o quartel ao exterior e a população nos tocava à campainha para deixar bolos, carinho e afeto”.

A gestão diária da equipa diretiva da AHBVC em tudo lembra o dia-a-dia de uma empresa e a prova disso mesmo é o próprio Plano Estratégico da associação assente em cinco pilares fundamentais, explicados à AESintra por Alcino Alves. O primeiro dos cinco remete-nos para a necessidade de investir nos recursos humanos: “ser bombeiro tem de ser uma profissão atrativa.

“É na gestão ponderada, criativa e imaginativa dos nossos recursos, nomeadamente os financeiros, que somos uma verdadeira empresa a trabalhar. Não visamos o lucro e queremos suportar os nossos investimentos de uma forma sustentável optando por uma visão profissional que garanta a nossa existência financeira”.

É necessário valorizar os nossos bombeiros que passam por situações traumáticas e têm que ser compensados por isso. A profissão bombeiro não pode ser equiparada a outras profissões, é muito especifica e tem de ser mais acarinhada pelo Estado, pelas Direções e pela própria comunidade”.

Outro dos pilares de destaque do Plano Estratégico é a reabilitação das instalações, a partir de um projeto já definido e estrutural que vai resolver
alguns dos problemas que o quartel enfrenta: “estamos a falar de um investimento de 395 mil euros, valor alto mas exequível, cujo arranque está dependente de algumas barreiras legais que uma vez ultrapassadas permitem-nos otimizar o espaço existente e acima de tudo ganhar centralidade no serviço”.

Em terceiro lugar, a Direção em funções pretende otimizar a frota automóvel ao longo de um espaço temporal estimado de 10 anos. Segundo o Presidente da Direção: “temos um parque de viaturas envelhecido e a nossa ambição é chegar a 2027/28 com uma frota completamente renovada”.

Os dois últimos pontos do Plano Estratégico revelam ambição, ousadia e uma grande capacidade de “pensar empresarialmente”. Esta Direção já iniciou o processo de implementação do Sistema de Gestão da Qualidade ISO 9001, norma internacional para a Certificação de Sistemas de Gestão de Qualidade.

Alcino Alves vai ainda mais longe na defesa da implementação do ISO 9001: “é muito importante que esta prática seja transversal a todas as corporações de bombeiros para atestar a transparência de como os dinheiros são gastos. Tanto quando pudemos adiantar só os bombeiros  de Espinho têm esta certificação.

Já não seremos os primeiros a obtê-la, mas ficaremos, seguramente, na história daqueles que primeiro se preocuparam com esta questão determinante”. Por último, a AHBVC pretende a internacionalização através da assinatura de protocolos
de colaboração com congéneres dos PALOP, situação que já acontece na área da formação com uma associação Guineense.

À pergunta, são ou não são uma empresa a trabalhar, Alcino Alves foi rápido na resposta: “os recursos são escassos e quer queiramos quer não, temos ordenados para pagar, fornecedores para atender, materiais para adquirir e investimento para fazer e nada disto se faz sem dinheiro. É na gestão ponderada, criativa e imaginativa dos nossos recursos, nomeadamente os financeiros, que somos uma verdadeira empresa a trabalhar. Não visamos o lucro e queremos suportar os nossos investimentos de uma forma sustentável optando por uma visão profissional que garanta a nossa
existência financeira”.

Perguntamos em como o tecido empresarial da freguesia e do concelho pode entrar nesta visão de futuro, e a resposta foi: “temos 3700 associados e a nossa ideia é que os protocolos já existentes, assim como todos os que se venham a firmar no futuro, possam garantir as nossas despesas correntes, para investirmos o dinheiro que nos chega por outras vias, nomeadamente, através dos sócios e dos beneméritos. A AHBVC tem de potenciar os serviços e capacidades que já tem instalados, temos de sair da caixa e refletir intensivamente sobre o papel dos bombeiros na sociedade que vai muito para lá do apagar fogos ou socorrer acidentados. Temos de estar cada vez mais abertos e disponíveis para interagir com o exterior”.

JEL37 – abr. mai. jun. – 2022

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