Especial edição

“Queremos merecer o apoio das empresas”

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Dois anos volvidos à frente dos destinos da Misericórdia de Sintra, Manuel Costa e Oliveira, eleito para o cargo de Provedor, quis criar “cumplicidade com Sintra e com os sintrenses”. Percebeu que a instituição tem de conseguir, por um lado, uma boa visibilidade e reconhecimento da comunidade e, por outro, a imprescindível sustentabilidade financeira, preferencialmente obtida por uma gestão que se quer quase como se fosse uma empresa. Quase, “pois nunca podemos esquecer o nosso trabalho de misericórdia, cada vez mais solicitado e exigente”.

Senhor Provedor, dois anos depois de nos termos sentado à conversa nesta mesma mesa, que balanço faz?
Antes de mais quero agradecer à AESintra a atenção que sempre nos dirigiu, ao promover a nossa visibilidade, que mais facilmente conduz à cumplicidade com Sintra e com os Sintrenses. Uma das dificuldades que encontrei foi a forma como os sintrenses olham para a SCMS, talvez com algum desconhecimento. Por isso mesmo, dei-me a conhecer, visitando as 15 Paróquias sintrenses e muitos outros organismos, e a todos disponibilizando a nossa ajuda. Também percebi que aquilo que fazemos tem pouco de diferenciador, pois as nossas respostas sociais são
levadas a cabo por outros, um pouco por todo o concelho. Portanto, defendo que teremos de trabalhar em linha uns com os outros, num espírito de entre ajuda que a todos beneficie.

Diferenciador em relação a quê ou a quem?
Em relação ao que uma Paróquia, uma Junta de Freguesia ou outros fazem, por exemplo. Algumas das Paróquias até têm serviços quem eu gostaria de ter, mas não tenho, como sejam: um Centro de Dia ou mesmo um Lar de Apoio à 3ª Idade. Reforço, portanto, que temos de trabalhar em sintonia, dando e recebendo, sempre em favor daqueles que mais precisam de nós.

 

Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Sintra e Presidente da Assembleia Geral da AESintra – Manuel Costa E Oliveira

Isso leva-me à pergunta: qual é o espaço de intervenção da SCMS na comunidade? O que têm para oferecer?
Para já, temos para oferecer a qualidade do nosso serviço, o que reputo de muito importante. Apoio social, apoio domiciliário, infância, psicologia ou outros, são disponibilizados com muita qualidade. Mas acho que temos de trabalhar em equipa, prestando este tipo de serviços de misericórdia, ajudando quem mais precisa. Não podemos estar sozinhos, antes temos de nos coordenar entre todos. Mas, reforço, os nossos serviços são de qualidade e podem sempre servir de exemplo. Estes dois anos foram de aprendizagem. Aqui chegado, percebi que tenho
uma dupla função que não é nada fácil de concretizar. Por um lado, fazer o dito e já referido trabalho de misericórdia, ajudando e servindo todos que possam precisar de nós e essa é a razão da nossa existência. Mas deixe-me repetir porque é muito importante, eu sou ‘’quase’’ uma empresa, pois tenho que gerar a minha riqueza, até para que possa investir num desejável crescimento. Numa palavra, tenho de ser financeiramente sustentável, para que possa continuar o meu trabalho. Uma dupla responsabilidade que não podemos descurar.

“(…) essa é a razão da nossa existência. Mas deixe-me repetir porque é muito importante, eu sou ‘’quase’’ uma empresa, pois tenho que gerar a minha riqueza, até para que possa investir num desejável crescimento.”

São duas funções complementares então, prestar o serviço que lhe está atribuído e ganhar dinheiro, falando assim de forma simples?
Muita gente pensa que a SCMS não precisa de dinheiro porque tem receitas vindas do jogo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Temos uma realidade completamente diferente das outras 400 misericórdias que existem em Portugal, não temos nada a ver com Lisboa e a SCMS tem de conseguir explicar isso mesmo. Mais ainda, são muitas as pessoas que pensam que pelo
facto de sermos uma Misericórdia, tudo nos é permitido, tudo nos é aceite, que a Misericórdia de Sintra não tem de ganhar dinheiro, podendo até perdê-lo. Não é verdade! Temos as nossas dificuldades e temos de saber ultrapassá-las. De outra forma, entraremos por caminhos mais difíceis, que nos poderão fazer perder a capacidade de fazermos misericórdia, como é o nosso
grande objetivo.

Entramos na questão da sustentabilidade financeira, na necessidade de gerar receita…

Precisamente! A SCMS pode ver-se fragilizada como qualquer uma das empresas vossas associadas. Creio que as instituições, num cenário destes, possam ter mais compreensão e aceitação pelo facto de sermos uma Misericórdia, mas também isto tem um limite. Para a desejável estabilidade financeira o Estado contribui, mas não o suficiente, o que nos leva à necessidade de obtermos as nossas receitas próprias.

Paulo Teixeira (AESintra),  Manuel Costa e Oliveira e Joaquim Viegas Simão (Presidente da Direção da AESintra)

E que soluções são essas?
É precisamente na resposta a esta pergunta que me parece estar a pertinência da gestão ‘’quase’’ empresarial necessária para a SCMS. Pergunta-me por soluções…. Pois bem, falemos de negócios sociais. Não podemos partir do princípio de que, pelo facto de sermos a Santa Casa, todos sentem a obrigação de nos ajudar, mas não é assim que funciona. Temos de merecer ser ajudados e temos de pensar no retorno para quem nos ajuda. De outra forma, não conseguiremos alcançar os nossos objetivos. Temos de pensar em empresas amigas, mais amigos e mais Irmãos. Temos de saber criar o dito sentimento para connosco, para que todos nos reconheçam como merecedores de toda a ajuda. Até porque temos aqui um outro dado interessante, que é o facto de as nossas receitas geradas não serem para distribuir, mas sim para reinvestir nas nossas ações. Nas muitas ações e iniciativas que gostaríamos de abraçar, sempre a pensarmos no nosso trabalho de misericórdia, cada vez mais reclamado.

Em quê, por exemplo?
Num Centro de Dia, num Centro de Noite, num Lar… No alargamento do apoio domiciliário, no apoio alimentar para chegarmos a mais gente e com mais generosidade; na capacidade de atendermos mais doentes em Psicologia; no alargamento da nossa resposta ao apoio na infância, com mais uma creche e até em novas valências. Estes são bons exemplos de iniciativas que muito nos agradariam e que decerto todos receberiam de braços abertos.

Mas pergunto, onde está a capacidade financeira para tudo isto?
Por parte do Estado há apoios financeiros generosos, destinados a todos estes investimentos, porém, estão longe de serem suficientes, pelo que são necessárias as conhecidas receitas extraordinárias para alcançarmos tudo isto. Em conclusão, somos a Misericórdia de Sintra e estamos presentes para as nossas Obras de Misericórdia. Temos todas as condições para o fazermos, mas precisamos de muita ajuda. Vinda de todos aqueles que se queiram abeirar de nós e nos achem merecedores desses apoios que tanta falta nos fazem.

JEL37 – abr. mai. jun. – 2022

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