Especial edição

O revitalizado Mercado Municipal da Estefânia

Sónia Firmino
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Em Sintra, no núcleo central do Bairro da Estefânia, nasceu um novo pólo de animação da economia local. Com mais vida e mais valências, o Mercado Municipal da Estefânia é exemplo da evolução destes equipamentos, quase sempre situados no seio da malha urbana e que dão corpo à reflexão sobre a reinterpretação da sua existência, função e permanência. A Estefânia está mais viva e o mercado municipal é o responsável. Ofenómeno de transformação dos mercados municipais veio para ficar. Verdade que tudo parece ter começado sobretudo em Lisboa, primeiro na Boavista, em Campo de Ourique e no Cais de Sodré e agora também em Sintra. Em abril passado o Mercado Municipal da Vila de Sintra abriu ao público num conceito totalmente renovado e modernizado e ainda este ano, o Mercado da Estefânia foi reinterpretado, com a abertura de um novo espaço de restauração, lotado quase todos os dias da semana, particularmente à hora do almoço. Passou a existir mais vida no extinto Bairro da Estefânia, lembrando tempos idos em que os mercados municipais eram o coração dos bairros residenciais muito por conta das novas valências e das melhores infraestruturas que correspondem às exigências dos tempos, também eles novos. Não será descabida a ideia de que também em Sintra está em curso um processo autárquico de renovação dos mercados, considerando estes dois exemplos – Vila e Estefânia – que, aparentemente, parecem conjugar urbanismo e planeamento urbano com as políticas de Urbanismo Comercial. No âmbito das estratégias de ação da AESintra, interessa defender e potenciar as atividades locais que acontecem dentro e nas proximidades destes mercados. Importa trazer mais-valia a estas tradicionais estruturas retalhistas, há muito representadas por pequenos comerciantes que sempre ali estiveram e nunca deixaram descurar o comércio de proximidade, a qualidade e a frescura dos produtos que vendem, não esquecendo que o “papel principal” destes equipamentos (ainda) é satisfazer a necessidade de abastecimento das populações, proporcionando a criação de identidades únicas e contribuindo para a evolução permanente das áreas urbanas em que se inserem. Concentremo-nos no Mercado da Estefânia e nos novos fatores de atração do espaço que, indubitavelmente, estão a conquistar gerações mais novas e a trazer de volta ao mercado a vida e o tráfego que tiveram outrora. Quisemos saber que diferença esta renovação trouxe aos vendedores retalhistas, às tradicionais bancas do peixe, da fruta fresca, etc. Recordemos o extinto Bairro da Estefânia, recorrendo como fonte de informação ao 1º volume da obra de José Alfredo da Costa Azevedo – Bairros de Sintra. A reabilitação urbana e a dinâmica de comércio local existentes na Estefânia, assim como o caminho de potenciação dos espaços de retalho, comércio e serviços espalhados pela área em redor, parecem estar a servir de âncora à recuperação e ao renascimento da imagem esquecida do Bairro da Estefânia. Bairro da Estefânia a renascer por via do comércio local Parece que o topónimo Bairro da Estefânia, sem nunca ter sido formalmente extinto foi-se apagando na História. Com a nova dinâmica do Mercado Municipal da Estefânia e do comércio de proximidade, particularmente nas redes sociais, o topónimo foi rebuscado e apesar de ser desconhecido para parte significativa dos sintrenses, é verdade que foi (é), uma realidade, apesar das alterações significativas na configuração do espaço urbano que tem sofrido desde o séc. XIX, data de formação do bairro, referida no 1º volume da Obra de José Alfredo da Costa – Bairros de Sintra. Estávamos no reinado de D. Pedro V, progressista e devoto à sua esposa Rainha D. Estefânia que em sua homenagem começou por chamar ao bairro -“Vila Estefânia”, mais tarde bairro da Estefânia. Nessa época as casas eram muito poucas e a zona que integrava e ainda integra o bairro da Estefânia pode ser fechada num perímetro formado por várias artérias e largos, extensíveis até aos Paços do Concelho. No livro referido, José Alfredo da Costa Azevedo faz uma descrição pormenorizada das várias ruas, relatando algumas histórias de edifícios e personalidades, eternizadas na toponímica do bairro. Na obra, o autor refere que já no século XIX, apesar das poucas construções existentes, a rua Heliodoro Salgado já era a mais comercial. Os Mercados Municipais são o coração dos bairros residenciais e o da Estefânia, aquele que motivou o especial desta edição do JEL, localiza-se numa das entradas privilegiadas de Sintra, outrora promovida pela antiga comissão de Turismo de Sintra, nacional e internacionalmente, como “A Sala de Visitas de Portugal” (blogue Sintra Paradísica). No mesmo blogue, lê-se que o bairro da Estefânia da altura, “era uma entrada simpática onde os visitantes eram recebidos com fidalguia antes de se lhes escancarar as portas para o deslumbramento. Bairro simples, sem monumentos e sem o passado histórico da Vila Velha, o Bairro da Estefânia, de edificação mais recente, encantava pela beleza de algumas das suas moradias e palacetes e pelos pequenos prédios de arquitetura singela mas harmoniosa, então cuidadosamente limpos e bem conservados”. Recuperar o topónimo Bairro da Estefânia e associá-lo à nova dinâmica comercial da área, dentro do próprio mercado municipal e nas zonas limítrofes que se estendem em seu redor, pode ser uma forma de recuperar a identidade do bairro, resgatando memórias e valias que naturalmente sempre existiram. “O mercado estava ‘morto’, sem vida; este espaço trouxe vantagens para todos.” Foi assim que Adélia Maria começou o seu testemunho sobre a nova revitalização do Mercado da Estefânia. Associada da AESintra, gere uma das bancas de peixe e só vê vantagens na abertura do novo espaço que “tem tudo para correr bem, principalmente no verão”. A peixeira fez referência aos novos clientes que passou a ter, alguns que até desconheciam a existência das tradicionais bancas: “tenho um casal de clientes que agora almoça lá em cima à sexta-feira e depois passa pela minha banca para comprar peixe”. Tal como Adélia, também António Lucas, peixeiro da banca vizinha, está contente com o novo conceito, aliás, outra das vantagens para ambos foi a mudança da cave para o andar de cima, facto referido por Adélia como um dos motivos de recuperação de clientes antigos. O peixeiro assume que a reabilitação do andar de cima multiplicou bastante o tráfego de pessoas no mercado, apesar de achar que “quem vem lá não passa por aqui” e essa é também a opinião de Francisco Nunes, do Talho Zé Maria, que nota maior afluência de clientela ao fim de semana, mas que durante a semana o movimento de pessoas não lhe trouxe mais negócio. Simão Ribeiro, da Fábrica das Queijadas, é uma das novas lojas de pastelaria e restauração. Este associado da AESintra procurou no novo Mercado da Estefânia a oportunidade de ter um espaço físico em Sintra e está particularmente feliz por estar “tudo a correr muito bem”. O associado referiu a importância de reabilitar as instalações sanitárias e vê como mais-valia a colocação de um Multibanco no espaço. Já Ruben Fonseca, da Despensa D’Aromas, conceito de restauração Vegan, afirmou que o Mercado da Estefânia já merecia uma intervenção assim. Está particularmente satisfeito com a adesão das pessoas a este conceito alternativo de refeição. Foi unânime entre os associados com quem o JEL falou, a indefinição de horários de funcionamento no espaço, considerando-se que devem ser diferenciados para a zona de venda a retalho e a nova área de pastelaria e restauração. O estacionamento, no caso a falta dele, também parece preocupá-los, assim como a reabilitação da cave, fechada até à data, mas encarada por todos como mais uma área que pode potenciar todo o funcionamento do Mercado Municipal da Estefânia. Não menos importante é a dinâmica criada entre os retalhistas já presentes no espaço, que este ano, pela primeira vez, conseguiram fazer o seu almoço de Natal no próprio espaço e isso, segundo Adélia Maria, foi a “melhor coisa que podia ter acontecido”.

Sónia Firmino
Sónia Firmino

Diretora Jornal Economia Local (JEL)

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