Especial edição Desporto

Frederico Gil – Atletas internacionais e jovens empresários de Sintra

Sónia Firmino
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Frederico Gil é um dos mais destacados tenistas portugueses e durante quatro anos esteve no top 100 dos melhores do mundo. Mudou-se paranSintra (Colares) com 8 anos de idade, onde já passava os fins de semana na casa de família, e é no concelho que começa a sua ligação ao ténis. Uma lesão antecipou o arrasto da sua paixão pelo ténis para uma vertente empresarial, onde sempre soube que haveria de chegar.

Como é que as pranchas e as raquetes entram nas vossas vidas e quais os momentos mais altos da vossa carreira de desportistas de alta competição, até à data?
Frederico Gil (Fred) – Começou no Banzão, entre familiares e amigos dos meus pais. Luís Flores Marques, um desses amigos, acabou por ser o meu treinador e levou-me
para o Carrascal. Aos 5 anos venci o meu primeiro torneio. Comecei logo a jogar com raquetes de madeira e com adultos e aos 7 voltei a repetir a proeza. Em 2010 atingi o momento mais alto da minha carreira, quando alcancei a final do Estoril Open. No ano seguinte fui até aos quartos de final em Monte Carlo e em 2012 joguei a 3ª ronda do Open de Austrália.

Nic Von Rup (Nic) – Começo na praia Grande com 8/9 anos de idade, sempre com muita energia e uma paixão enorme pelo mar. Lembro-me perfeitamente de estar no carro com o meu pai (que é americano) a ouvir Beach Boys e de lhe ter perguntado qual era o sentido do Surf. O Surf trazia-me “calor”. Passava o dia na água, de manhã à noite e os meus pais preocupavam-se naturalmente, ainda por cima na praia Grande onde o mar é forte. O meu 1º treinador foi o João Macedo, também surfista local da praia Grande, muito importante na minha formação. Éramos um grupo espetacular de surfistas, todos da mesma idade, todos a adorar surf…. Com 9 anos ganhei o meu 1º campeonato no Norte, numa altura em que tinha muitas atividades. Com esta vitória decidi que surf era o que queria fazer a tempo inteiro e nunca mais olhei para trás.

O Surf foi sempre o primeiro e único plano?
Nic – Na altura não via o surf como uma profissão, obviamente que sonhava com o dia em que pudesse ser patrocinado, mas era um sonho longínquo. Na altura o surf profissional era inexistente em Portugal, mas a paixão que sempre tive levou-me a viajar pelo mundo – Havai, Austrália – e a estar e competir com os melhores do mundo. Aos 14 anos fui patrocinado pela QuickSilver e aos 16 fui vice campeão europeu e 5º no mundo. Apesar de cedo ter conseguido apresentar resultados, os meus pais “obrigaram” a concluir o 12º ano, essa era a preocupação e a prioridade.

E contigo Fred, houve sempre esta questão de concluir os estudos….
Sim, sim, para os meus pais também era uma prioridade. Conclui o 12º ano já em regime de alta competição e aos 14 anos já integrava o centro de Alto Rendimento do Jamor. Tinha sessões de treino bidiárias. Era muito difícil conciliar escola e treinos e nessa altura já fazia muitos trabalhos online, aliás, passava 3 semanas fora do país e uma cá. Nunca considerei ter outra profissão e aos 21 anos já estava financeiramente autónomo….. o Ténis envolve muito mais investimento, comparativamente ao Surf.

Nic – Sim é verdade, mas hoje em dia o Surf em Portugal tem uma dimensão que não tinha há 10 anos. Os patrocinadores investem e nós gerimos o nosso próprio calendário. Sou autónomo desde os 15 anos, mas os meus pais não têm um background desportivo. Para eles fazer carreira profissional no desporto passava por ser tenista ou futebolista. Houve sempre alguma pressão dos meus pais para tirar um curso, mesmo quando começaram a aparecer os primeiros resultados internacionais, porém, apesar de ter tido sempre um plano B, acredito desde o primeiro momento no meu potencial.

Sei que ambos já aliaram à competição enquanto atletas a vertente empresarial?
Fred – O ano passado fui campeão nacional mas lesionei-me e fui obrigado a parar a competição. Sempre quis ser treinador e estou a desenvolver trabalho nesse sentido como personal trainer. Também sempre quis ter uma academia, mas até ao ano passado achava que estas vias surgiriam depois dos 40 anos. Esta lesão mudou o rumo da minha vida e precipitou estes projetos. Recentemente fui convidado a integrar um projeto na Beloura que vai abrir nove centros no mundo inteiro e estou a trabalhar com uma empresa austríaca ligada ao ténis. Sou atleta mas sempre fiz o meu percurso a pensar em ser bem sucedido, particularmente na área empresarial e de negócio, sempre com vínculo ao ténis.

Queres falar-nos sobre esse projeto na Beloura?
O Beloura Tennis Academy é um projeto de um português – Ricardo Rocha. Estamos a construir as melhores raquetes do mundo, de origem portuguesa e vamos criar uma linha de roupa no regime de tailor-made services que não existe no mercado. Neste serviço, desde sapatos, roupa, raquetes é tudo feito à medida do cliente. Acredito muito neste projeto e a ideia é franchizá-lo pelo mundo inteiro. Sou um dos embaixadores da marca e estou basicamente a 100% neste projeto que começa aqui, em Sintra.

E tu Nic, apesar de mais novo, já estás lançado empresarialmente, certo?
Na verdade o meu backgound é muito mais empresarial. Os meus pais têm há 30 anos uma empresa de distribuição e durante toda a minha vida que oiço e contacto com esta
realidade. O meu pai sempre me lembrou que há uma altura em que o desporto só de competição acaba e apesar do meu foco ser o surf não vou viver dele para o resto da minha
vida. Há um ano lancei a minha própria marca de acessórios – Brusco– inspirada na costa Atlântica e na nossa cultura de surf. Em Portugal temos as maiores ondas e as melhores tempestades, apesar disso, cresci a minha vida inteira com marcas estrangeiras. Portugal, hoje em dia e não só no que ao surf diz respeito, tem um impacto que inspira o mundo inteiro. Toda a gente fala da Nazaré, dos surfistas portugueses, da gastronomia, da qualidade de vida….. Com a Brusco pretendi criar uma marca de Portugal para o
mundo e não o contrário. A Brusco já está em Portugal e nas principais lojas da Europa e o próximo passo é expandi-la para o mundo inteiro.

E Sintra, acolhe bem as modalidades que representam?
Fred – Como é que posso dizer isto….. ADORO SINTRA, quando passo em Galamares entro em casa e sinto uma energia especial. Sintra nem é dos melhores sítios para o
ténis por causa do micro-clima, seria necessário criar infraestruturas cobertas para se conseguir jogar o ano inteiro. O ideal seria juntar esta qualidade de vida com melhores
infraestruturas. Sintra precisa de mais originalidade, de uma gestão mais dinâmica dos equipamentos desportivos…. A praia Grande, por exemplo, podia ser uma mini-Miami e devia ser modernizada.

Nic – Na verdade a prática de tow-in começou na praia Grande. Na Nazaré, Peniche, Ericeira, o surf profissional escalou nos últimos anos e seria coerente viver num destes locais, mas é na Praia Grande que me sinto confortável. Sintra tem uma cultura de surf muito forte apesar de ser pouco conhecida. Os melhores surfistas portugueses
de ondas grandes cresceram todos na praia Grande – João Macedo, António Silva, André Pedroso, João Pereira Caldas. Hoje em dia o surf é um veículo de marketing, havendo
estruturas locais que aproveitam e outras que não o fazem. Creio que Sintra ainda não aproveitou.

Nic, não vou deixar escapar a oportunidade para te perguntar o que te passa pela cabeça quando desafias aquelas ondas gigantes; o que sentes?
Tenho pensado muito no que aconteceu para eu ter optado por este caminho e cheguei à conclusão que foi por ter tido um treinador muito exigente que puxava imenso por
mim e não deixou que os meus medos me bloqueassem. Se há 20 anos me dissessem que eu estaria a competir para surfar a maior onda do mundo, a maior onda alguma vez
surfada, eu diria que seria impossível. Creio que é a paixão pela superação que me levou até onde hoje estou. É difícil explicar e é viciante. São precisas muitas horas de treino
no ginásio e uma equipa muito empenhada na segurança. Está tudo muito bem oleado e estruturado e partimos sempre do pressuposto de que tudo vai correr muito bem e
se correr menos bem, estamos preparados para responder.

Para acabarmos, sentem que há espaço de crescimento para o ténis e para o surf no concelho de Sintra?
Fred – Sim, a aposta devia ser feita nas referências locais que o concelho tem e que são excelentes. Referências essas que passaram a ser mundiais. Investimento! Investimento! Investimento!. Nas praias, nas infraestruturas desportivas, na dinâmica e no apoio direto aos atletas. Sabe qual é a grande receita para esta última questão? Nos EUA há uma forte conciliação entre a prática desportiva e o percurso escolar generalizado com os designados colleges. Muitos e bons atletas que ficam cá em Portugal, têm uma espécie de game over antecipado, por falta de condições financeiras e de apoio. O treino e preparação de um atleta de alto rendimento tem de ser integrado, aliás, o projeto que atrás lhe falei
na Beloura é feito com base neste conceito. Infelizmente ainda sinto alguma desunião, as pessoas não estão preparadas para trabalhar de forma cooperativa. Temos uma costa atlântica enorme, cheia de mar e podíamos aproveitar melhor esta bênção.

Nic – O turismo do Surf é um dos mais fortes em Portugal e o país já reconheceu as condições naturais que o Fred mencionou, mas ainda não preparou infraestruturas à altura. Tenho um sonho, gostava que toda a gente tivesse, pelo menos uma vez na vida, a oportunidade de experimentar surfar. O surf muda a vida das pessoas e pode ser uma terapia.

JEL30 setembro/outubro

Sónia Firmino
Sónia Firmino

Diretora Jornal Economia Local (JEL)

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