Especial edição

“Fazer o que ninguém faz é um dos segredos”

Fica no Ral a maior empresa de construção de carroçarias de Sintra e foi fundada em 1978 por Adelino Sabino. A Sabino Truknologies é hoje gerida pelos seus dois filhos, que no seu ADN transportam a veia empreendedora do progenitor: fazer o que mais ninguém ou poucos fazem. O JEL foi falar com o Sérgio Sabino e com o João Sabino, testemunhando, uma vez mais, a importância da identidade das empresas familiares.

O normal será iniciar a nossa conversa por onde tudo começou…. Sérgio Sabino (SS) – Pela mão do meu pai que trabalhou numa empresa de Montelavar de assistência a camiões e quando o trabalho começou a diminuir, começou a fazer alguns trabalhos por conta própria na garagem do meu avô. As coisas começaram a correr-lhe bem, tanto que decidiu construir, sozinho e com muitas dificuldades, este pavilhão onde nos encontramos e onde existia uma horta.

E que tipo de trabalho começou por desenvolver o seu pai? (SS) – Assistência a máquinas, mas cedo quis ter o seu próprio produto, altura em que começou a fazer carroçarias em madeira sem nunca as ter feito (risos)….

Como assim, o sr. Adelino Sabino não sabia fazer carroçarias em madeira, mas ainda assim decidiu que as ia fazer? (SS) – Exatamente! Sabe, o sucesso deste negócio está escrito na forma como o meu pai traçou o seu caminho. Caminho esse adotado por mim e pelo meu irmão, ainda hoje: fazer o que ninguém ou poucos fazem. Este é o ADN da Sabino Trucknologies.

Digam-me, como é que se juntam ao negócio? (SS) – Sou o mais velho e fui o 1º a juntar-me. Vejo o meu pai como um herói e foi natural a minha vinda para a empresa. O meu irmão João licenciou-se em Engenharia Mecânica. Temos ambos filhos. Eu tenho dois e o mais velho, apesar de ainda muito jovem, tem gosto pela área e este ano vai iniciar um curso de Mecatrónica. As minhas sobrinhas são ainda muito novinhas.

Em traços gerais, o que faz então a Sabino Trucknologiess? (SS) – A nossa empresa foca-se na construção de soluções de transporte e elevação de carga; 90% daquilo que fazemos é idealizado, criado, produzido e montado aqui.

Estamos a falar de quantos trabalhadores? (SS) – Somos quase 20, mas podíamos ser mais não fosse a dificuldade em contratar trabalhadores especializados. Para ter ideia não há no mercado serralheiros disponíveis e os poucos que nos chegam são de outras nacionalidades. O setor atravessa um problema forte de falta de recursos humanos, mas não só na serralharia, também em áreas especializadas como a hidráulica; a pneumática; a eletricidade, etc. Por hora esta escassez não afeta grandemente a nossa gestão porque nos obrigamos a coordenar muito bem todos os processos.

Estando o mundo a atravessar uma crise generalizada de escassez de matérias-primas, como é que esta questão é sentida na Sabino Trucknologies? (SS) – Tem sido um desafio principalmente na área dos componentes eletrónicos.

Quem são os vossos principais clientes? (SS) – A maioria são portugueses, mas também trabalhamos com alguns clientes estrangeiros, mas é residual. Dessa maioria a grande representação são de marcas de veículos comerciais e temos uma parceriamuito importante com a Palfinger Portugal, fabricante de sistemas hidráulicos de elevação, carregamento e manuseio, as conhecidas gruas e guindastes.

Considerando essa postura empresarial já herdada do vosso pai em fazer o que os outros não fazem, que caminhos vos tem aberto? João Sabino (JS) – Abriu-nos um muito importante nos últimos anos e que resultou num grande investimento. Esse investimento passou por criar e otimizar a área de Projeto da Sabino Trucknologies, com a contratação de dois engenheiros, um projetista e outro mecânico. A aquisição de uma máquina de corte de laser – o outro grande e importante investimento – revelou ser um grande salto qualitativo na nossa produção que agora nos permite tirar partido dos materiais de outra forma e noutras geometrias. Na verdade, com este equipamento, passamos a ter toda a liberdade de produção nas nossas mãos.

“Emprestam” a terceiros o resultado desses investimentos? (JS) – Sim, trabalhamos em regime de subcontratação com empresas maioritariamente de Sintra. A nossa máquina de corte de laser permite responder a solicitações just in time de peças com geometrias complexas, produção de protótipos e fabrico em série. Também somos procurados por empresas que já identificaram o nosso know-how na área de projetos de engenharia e a essas “emprestamos” a nossa capacidade de criar, desenhar e projetar.

Isso remete-nos para um modelo empresarial cooperativo… (JS) – Verdade, para já é um negócio de proximidade que permite a qualquer serralharia ter acesso a uma máquina cujo investimento é muito avultado; esta está aqui no RAL e está disponível! O tecido empresarial do concelho já percebeu que temos estas competências técnicas e isso ajuda-nos a construir pontes e a fomentar relações de trabalho. Note que a maior parte das empresas de Sintra são PMEs sem acesso a estes recursos humanos e materiais; nós temo-los e estão ao dispor do concelho.

A área de Projeto é uma das vossas grandes apostas? (JS) – Estamos a trabalhar “pedra sobre pedra”. Temos um objetivo, nesta área: conseguir autonomizar e standardizar um sem número de componentes. Este processo, é importante e inevitável apesar de ser difícil e moroso. Paralelamente, estamos muito concentrados na nossa ferramenta de gestão integrada, de digitalização e consequente otimização de processos e isto tem-nos roubado muito tempo! É necessário trabalhar o negócio e não no negócio.

É preciso foco, portanto…. (JS) – Exatamente! A nossa Casa, neste momento, está muito assente na engenharia, mas estamos muito atentos à gestão da empresa. De génese somos uma empresa familiar que tenta alcançar a profissionalização sem perder a essência, fazendo crescer o negócio através de ferramentas que harmonizam o fluxo de informação com vista a uma gestão mais otimizada.

Para terminar gostava de voltar à questão do vosso ADN – fazer o que mais ninguém ou poucos fazem – perguntando se têm alguma carta na manga que possa ser revelada? (Sérgio e João) Já foi revelada…. Estamos muito apostados no nosso novo produto; viatura de resgate e pronto-socorro de viaturas avariadas ou acidentadas. Este produto está a provocar grande interesse e curiosidade nas redes sociais da empresa, onde temos vindo a falar sobre ele. Temos um projetista dedicado a 100% a esta área de negócio que nos desafia a aplicar todos os conhecimentos que fomos adquirindo ao longo dos anos ao nível da hidráulica, da eletricidade, etc.

JEL38 . JULHO/AGOSTO . 2022

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