Especial edição

Escassez de mão-de-obra impede a Galucho de crescer ainda mais

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JEL35 – novembro/dezembro 2021

Líder no desenvolvimento de soluções eficientes em duas áreas de negócio: agricultura e equipamentos de transportes, a Galucho é uma empresa familiar e centenária. Está sediada em São João das Lampas e, à altura desta entrevista, tinha 42 vagas em aberto o que dificulta o crescimento da empresa, conforme adiantado por Nuno Gama Lobo – Diretor de Operações, Gestão, Negócios e Finanças da Galucho. A Galucho foi “o polo de desenvolvimento da agricultura portuguesa”, exporta praticamente para o mundo inteiro, tem representação na Argélia e é a partir de Sintra que projeta uma das mais referenciadas marcas do concelho. A Galucho precisa de gente para trabalhar, mas não consegue recrutar

Em que medida a carência de mão-de-obra afeta a Galucho? Afeta bastante, mas não é um problema exclusivo à Galucho, é do país. É reflexo de um conjunto de erros de vários anos que acabaram por confluir no ponto em que nos encontramos. Vivemos um período crítico. A Galucho cresceu nos dois últimos anos do ponto de vista da rentabilidade, este ano as vendas aumentaram em 30% fase ao ano transato o que significa que estamos claramente em sentido ascendente só condicionado pela escassez de mão-de-obra especializada e operacional, particularmente na área fabril. Estamos a falar de serralheiros soldadores, operadores de robótica, montadores, etc. O mercado não tem disponíveis profissionais nestas áreas.

Não tem, porquê? O fim do ensino profissional em Portugal na década de oitenta foi catastrófico. A indústria foi completamente abandonada e hoje só temos duas escolas profissionais nestas áreas: A CENFIM e a ATEC – esta última de uma entidade privada. A Galucho tem parceria com várias instituições, mas a dificuldade é grande porque o problema de recrutamento é generalizado e sentido por toda a indústria. Outra questão fundamental na dificuldade de recrutamento é a impossibilidade das empresas portuguesas concorrerem com os salários pagos noutros países da Europa. Os nossos profissionais são muito procurados e acabam por se instalar fora do país.

A Galucho está deslocalizada em relação aos grandes núcleos industriais… Sim, é uma verdade incontornável e que nos dificulta ainda mais o recrutamento. Estamos numa zona rural, afastados dos grandes polos industriais e dos grandes centros urbanos e isso também afasta a atratividade necessária.

Falou-me atrás que não existem soluções mágicas para este problema, agora pergunto, a Galucho tem tentado reverter a situação? Sim, por opção estratégia a Galucho viu-se forçada a reagir, criando um centro de formação nas nossas próprias instalações, em parceria com o IEFP. No final de cada formação que é paga, as pessoas têm acesso à Carta Profissional e os melhores são integrados nos quadros da empresa, mas devo-lhe dizer que, ainda assim é difícil, recrutar.

Mas atrair colaboradores não passa só por oferecer vencimentos altos… Certo! Neste momento a Galucho absorve todos os profissionais competentes qualquer que seja a idade e sim, fá-lo porque também conseguiu melhorar a capacidade de atratividade para o trabalhador. Aumentámos significativamente o vencimento nestas categorias profissionais. Desde 2017 que os vencimentos têm vindo a aumentar e também por isso recrutamos com mais facilidade, a questão central é que existem muito poucos profissionais disponíveis.

É absolutamente necessário formar recursos humanos que permitam trabalhar a indústria, tornada, ao longo de vários anos e por culpa dos países mais industrializados, no parente pobre da Economia

Porquê 2017 como referência? Foi o ano em que começamos a mudar a nossa linha estratégica de gestão empresarial. Hoje somos 283 colaboradores, o que faz da Galucho a 15ª maior empregadora do concelho, em 2017 éramos 365 e faturávamos menos 30% do que hoje estamos a faturar. A nossa estratégia passou por otimizar processos, reduzir trabalhadores – dando melhores condições a todos os que cá trabalham – criando, assim, um modelo de negócio cada vez mais sustentável.

No meio chega uma pandemia…. Durante a pandemia os nossos colaboradores dedicaram-se à empresa de uma forma absolutamente extraordinária, por isso, por eles e pelos sacrifícios pessoais que muitos fizeram, a Galucho cresceu. As duas principais áreas para a empresa são o setor agrícola e o setor dos transportes que acabaram por não abrandar durante a pandemia, pelo contrário, aceleraram. Sei dizer-lhe que a Galucho cresceu neste cenário de dificuldade e nunca fomos obrigados a parar linhas de produção por falta de matérias-primas. Fizemos um enorme investimento na segurança e proteção dos nossos colaboradores, testando periodicamente, obrigando o uso de máscara quando ainda não era obrigatório, escalando uma equipa de desinfeção diária a todos os postos de trabalho, enfim, foram/são tempos difíceis cujo esforço anímico e financeiro permitiu nunca parar de trabalhar e isso justifica em absoluto todo o investimento feito.

(Legenda foto) Paulo Teixeira (AESintra), Joaquim Viegas Simão (AESintra) e Nuno Gama Lobo (Galucho)

E o que está a falhar no perfil dos poucos candidatos que aparecem? Tenho uma opinião objetiva nessa questão. Considero que Portugal vive uma situação de quase pleno emprego. O IEFP é um excelente parceiro da Galucho nesta questão do recrutamento e da formação, porém, sentimos que por vezes não têm base de dados para trabalhar no sentido em que não conhecem o perfil dos candidatos. Como se explica que os formandos cheguem ao nosso Training Center para receber formação paga, em princípio com uma perspetiva de serem absorvidos pela Galucho com um contrato de trabalho, mas a maior parte desiste?

Galgando para a esfera mundial, a escassez de recursos humanos está a afetar o mundo, particularmente a Europa… Correto! Fala-se muito neste período pós-covid na quebra da cadeia de distribuição à Europa e na necessidade de se reindustrializar o Ocidente, mas para isso são necessários os tais recursos humanos que não existem porque nos últimos 30 anos a Europa mandou para fora a sua capacidade produtiva e tecnológica, para países com um custo de mão-de-obra muito mais reduzido e esse foi um erro crasso na salvaguarda dos interesses europeus. É absolutamente necessário formar recursos humanos que permitam trabalhar a indústria, tornada, ao longo de vários anos e por culpa dos países mais industrializados, no parente pobre da Economia. Aqui ou fora de Portugal, a perspetiva de carreira na indústria é muito melhor do que em qualquer outro setor, porém, as pessoas não estão cativadas para esta realidade. Portugal não é um país de génese industrial o que talvez dificulte ainda mais a formação e a identificação destes profissionais que tanta falta fazem ao mercado.

Hoje em dia o que afasta as empresas de uma zona de trabalho é a dificuldade de acesso a mão-de-obra, se Sintra conseguir criar essa capacidade não duvido que as empresas que já estão no concelho cresçam e outras se instalem.

E a Sintra, o que falta? O que falta a quase todas as vilas e cidades do nosso país: uma drive empresarial e um foco no desenvolvimento de competências que permitam atrair empresas de fora do concelho. As empresas vivem do ecossistema empresarial, podem sempre melhorar e fazer o seu próprio caminho, mas chega a uma altura em que é preciso absorver essa melhoria. Continuamos a formar milhares de jovens em áreas que o mercado não consegue absorver quando é tão difícil encontrar pessoas formadas em hidráulica, pneumática, mecatrónica. São as empresas que têm assumido a formação nestas áreas, mas o Estado precisa de assumir a sua responsabilidade. Por isso ter lançado o desafio de criar uma escola profissional no concelho, certo de que as pessoas vão atrás do trabalho e é preciso prendê-las a Sintra para deixarmos de ser um dormitório de Lisboa. Oeiras fez uma coisa muito semelhante com os Serviços. Deixo a ideia de fazermos em Sintra algo semelhante, mas com foco na Indústria.

Objetivamente, como podemos fazer isso? A criação de uma escola profissional em Sintra de génese industrial é vital. Tenho a absoluta certeza de que as empresas do concelho não se importariam de contribuir para fomentar isso mesmo. Apesar de disperso, temos um contexto empresarial do ponto de vista industrial com alguma dimensão. Falta um fio condutor, uma espécie de pacto de crescimento comum, subscrito por vários parceiros, entre os quais a AESintra, a Câmara Municipal de Sintra, o IEFP, etc. Hoje em dia o que afasta as empresas de uma zona de trabalho é a dificuldade de acesso a mão-de-obra, se Sintra conseguir criar essa capacidade não duvido que as empresas que já estão no concelho cresçam e outras se instalem. A Galucho está disponível para um projeto desta natureza. Fomos contactados pelo ISCTE para apoiar a construção programática de um curso de Gestão Industrial, inexistente em Portugal, e já nos comprometemos a ajudar, disponibilizando os nossos formadores e absorvendo alguns estagiários a cada ano.

Somos tantos…. Verdade, quase 500 mil pessoas orgulhosas dos nossos magníficos castelos e palácios! Isso ninguém nos tira, é nosso por direito! Mas veja-se, 80% da força de trabalho do concelho está fora dele. As forças locais devem criar polos de atratividade para qualificar pessoas, motivando-as a trabalhar cá. A mão-de-obra vai ser tema forte nos próximos 20/30 anos, portanto, quanto mais cedo tivermos a capacidade de olhar para este problema com abrangência estrutural, melhor. Repare, a Galucho tem neste momento 42 vagas por preencher, 80% das quais para a fábrica, as restantes nas áreas comerciais e administrativas. Muito mais do que força de trabalho, queremos contratar caráter, integridade e dedicação e se isso não acontecer os 22% que queremos crescer no próximo ano podem ficar condicionados.

Por último, como é que a Galucho lida com a subida exponencial do valor das matérias-primas e da energia? É sentido de forma brutal, mas relativamente à crise das matérias-primas fizemos um investimento enorme nos nossos stocks para não deixarmos de produzir, só possível devido à robustez financeira da Galucho, e neste momento não deixamos de trabalhar por falta de matérias-primas. Só para termos uma ideia o custo do ferro, em 11 meses, aumentou 126%. Considero ser um movimento especulativo que impacta negativamente na vida das empresas, mas vai passar. Para agravar, estamos todos a braços com o aumento do custo da energia que abrandou alguns dos investimentos que tínhamos pensados.

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