Entrevista secretária-geral Economia Local

L. Pinho & Pinho – “Somos comércio local desde 1987”

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As memórias que envolvem os negócios históricos são património de Sintra, dos proprietários e das incontáveis gerações de clientes que preferem comprar em qualidade e localmente. Nesta edição lembramos as condessas que bebiam chá enquanto faziam as suas compras; “estórias” que só o comércio local sabe contar!

D. Maria de Lurdes, conte-me “estórias” da L. Pinho & Pinho? São tantas! Veja, este pronto-a-vestir integra uma empresa quase centenária. Tenho 80 anos mas foi com 12 que para aqui vim trabalhar. Em 1987 surgiu a oportunidade de ficar com o negócio. O sr. José Silvestre, antigo dono, já em idade avançada, foi em mim que depositou confiança para passar o testemunho. Arrisquei, apesar de na altura a quantia pedida ter sido muito alta e o desafio ter sido enorme.

Que diferenças encontra nos clientes da altura e até no funcionamento do próprio negócio? Incomparável! Não havia transportes, os clientes chegavam aqui de burrito. Vendíamos riscado, elásticos, artigos de retrosaria, curtin para as calças dos trabalhadores…. Na altura a empresa tinha mais duas lojas, uma na praça da Estefânia e outra em Cascais. Quando assumi a L. Pinho & Pinho, esta loja aqui no Largo Afonso de Albuquerque estava muito velha e o 1º andar nem sequer podia ter uso, pois encontrava-se a cair. Acabei por abrir uma loja em Pêro Pinheiro e mais tarde outra no Estoril, ambas já não existem. Esta é a “loja mãe”, a que sempre mais gostei.

E na própria loja,que alterações foram feitas?
Hoje temos uma apresentação completamente diferente. As obras que fizemos e a mudança de comportamento do próprio consumidor, fizeram com que nos adaptássemos. Hoje em dia tentamos fidelizar os clientes sempre com o cuidado no atendimento e amexigência de qualidade dos artigos que temos em loja…. (Alexandre Sousa, filho) O atendimento é sempre personalizado e 90% dos nossos artigos são portugueses. Estes argumentos são a grande mais-valia do nosso negócio. Queremos servir bem e a excelente qualidade da confeção portuguesa garante o nosso nível de exigência. Antes da pandemia, 40%
dos nossos clientes eram estrangeiros, atualmente, 90% são portugueses que nos chegam dos arredores do concelho de Sintra e de outros concelhos. Não queremos que as pessoas venham só uma vez, por isso a nossa estratégia de fidelização.

Este local, Largo Afonso de Albuquerque e a Av. Heliodoro Salgado, são das artérias mais comerciais de Sintra, mas tem sofrido algumas alterações….(Maria de Lurdes Sousa) Era muito bonita, uma espécie de centro comercial a céu aberto, mas hoje está desvirtuada e para isso contribuíram alguns das lojas de artigos chineses. (Alexandre Sousa) Não podemos regressar ao “antigamente”, temos de nos adaptar. Na Vila Velha, por exemplo, tem sido feito um bom trabalho embora ache um pouco incomportável o fluxo de turistas que se verificava até à chegada da pandemia. Cidades como Milão e Paris têm os mesmos problemas, a dimensão é que é necessariamente diferente. O Largo Afonso de Albuquerque e a Av. Heliodoro Salgado deviam ter mais espaços verdes, mais bancos, mas é complicado que assim seja uma vez que a rua tem acesso de carros para os moradores. Há que ser otimista, pensar no futuro e não viver do passado; não me canso de dizer. De 15 em 15 dias mudamos a montra e faço acompanhar a divulgação dessa mudança nos nossos canais online (site e facebook), porém, não tencionamosenveredar pelas vendas online porque me parece que deviam ser regulamentadas. Tenho a convicção de que se todos cumprirem as regras, tudo melhora.

Como é que a gestão da L. Pinho & Pinho passa para as mãos do Alexandre?
Trabalhei durante 20 anos num gabinete de arquitetura, mas sempre disse à minha mãe: ou vou para perto de ti para dar continuidade ao negócio, ou ele acaba. As pessoas não são eternas. (Maria de Lurdes Sousa) Ele sempre mostrou interesse no negócio, aliás, foi com ele que foram feitas as principais alterações, nomeadamente as obras.

É um projetode futuro? (Alexandre Sousa) Sim, apesar de na atualidade não existirem garantias, posso adiantar que existe um projeto a curto/médio prazo para o qual temos margem de manobra financeira. A sobrevivência do comércio local é difícil e se houver necessidade de fechar portas é isso que teremos que o fazer, mas com muita tristeza…

Que conselhos dá a alguém que queira abrir um negócio local e próprio? Considero que a abertura de alguns negócios é feita de forma precipitada, sem serem considerados indicadores importantes: localização, por exemplo. É necessário fazer-se sempre uma prospeção de mercado, avaliar os riscos…. Não basta ter dinheiro disponível. São os riscos não calculados que muitas vezes ditam o insucesso dos negócios. Um empreendedor deve sempre olhar para o meio envolvente, fazer muito bem as contas para perceber se o negócio que quer implementar é viável no local escolhido.

A diferenciação, na sua opinião, é importante? Sim, bastante. As autarquias locais, antes de licenciarem alguns negócios, deviam fazer uma análise mais crítica. Falo nesta questão com um sentido pedagógico. Veja, não existe uma sapataria ou uma papelaria em Sintra, no chamado núcleo histórico, e tanta falta que fazem!!!! Retomando a sua questão anterior, creio que o melhor conselho que possa dar a alguém que queira abrir um negócio local e próprio é: façam a escolha certa no local certo. Não desistam. Quando se abre um negócio o espírito deve ser de trabalho. Também é importante estarem preparados para um retorno financeiro não imediato. (Maria de Lurdes) Sim, sim, muito trabalho e muita resiliência. O Alexandre veio ajudar-me mas nunca se encostou à mãe. O futuro da L. Pinho & Pinho é com ele, já não é comigo; estou descansada, este é um sonho de vida.

D. Maria de Lurdes, para acabarmos esta nossa conversa conforme a começámos – a contar “estórias” -, quer partilhar algumas? (risos) Lembro-me da Ti Madalena que vinha a Sintra de burrito e trazia saquetas de feijões e de batatas. Tinha por hábito brincar com ela, pedindo-lhe que me trouxesse ananás e ela dizia-me: – A menina não me chateie que ando cheia de combióticos!!!! Lembro-me também de uma senhora viúva que sempre que vinha à loja comprava um lenço preto. Conheci-lhe 4 maridos. Expus a minha dúvida e ela respondeu-me: – Ai! Menina, não há amor como o primeiro nem marido como o último.

JEL29 julho/agosto 2020

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Olga Figueiredo

Secretária-Geral AESintra

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