OPINIÃO Paulo Veríssimo

Vinhos produzidos e engarrafados em Sintra

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Falemos de vinhos produzidos e engarrafados em Sintra, reconhecendo com orgulho o lugar cativo e vitalício do vulgarmente chamado de Ramisco, mas abrindo espaço e dando voz a outros vinhos? O vinho é um dos mais importantes produtos regionais de Sintra, porém, espera há
muito por valorização. Depois de emergir no mundo do setor, visitando alguns produtores da região, assumo que a principal questão não é de fácil leitura nem tratamento. Na prática, peço-vos que desenhem mentalmente a imagem de um pódio, invulgarmente com dois lugares, mas só o do ouro está ocupado – o Colares DOC (Ramisco) – quando o justo é que se reconheça e valorize a prata. E no lugar da prata cabem todos os vinhos produzidos em chão rijo (argilocalcário), que não sendo DOC, denominação de origem só atribuída aos vinhos de chão de arreia, são únicos e ganham cada vez mais espaço nacional e internacionalmente.

Esta unicidade é conferida pelas condições de geografia e de clima únicas de Sintra, mas no panorama legal e na organização nacional desenhada da vinha e dos vinhos, os “nossos”, produzidos e engarrafados em Sintra, são Vinhos Regionais de Lisboa. Idealmente, mesmo inteirado dos obstáculos legais que não permitem a criação de região vinhateira de Sintra, é por este conceito que me envolvo. Estou apostado, na qualidade de presidente da AESintra e sob a tutela informal da Adega Regional de Colares na pessoa do engº José Vicente Paulo a quem, a partir daqui, quero deixar um especial agradecimento pela forma como me recebeu nas instalações daquela que é a mais antiga adega de Portugal. Estou apostado, escrevia eu, em organizar um encontro entre produtores do concelho, a restauração e a hotelaria, para ajudar a valorizar, a diferenciar e a divulgar os vinhos da região. Não faz sentido que nas cartas dos restaurantes de Sintra não se encontrem vinhos da região! A Sintra o que é de Sintra.

A ancestral história do vinho no nosso concelho é de resistência à grande praga europeia da filoxera em meados do século XIX que dizimou muitas vinhas. De resistência porque em todo o mundo só uma região inteira sobreviveu à praga; a nossa. Por “nossa” entenda-se a que  concentra as freguesias de Colares, São Martinho (hoje União de Freguesias de Sintra) e São João das Lampas, premiada com Denominação de Origem Controlada (DOC) desde 1908. Nesta altura de resistência da casta Ramisco, Sintra tinha 1500 hectares de vinha, hoje, o Colares DOC representa menos de 10% da totalidade de todo vinho produzido na região.

Nas vinhas de Sintra há um percurso histórico vinhateiro que encanta os mais conceituados especialistas internacionais e que tem atraído investidores para a região, apaixonados pela História e entusiasmados com o comportamento de outras castas (algumas estrangeiras) e do vinho que delas resulta. É certo que Sintra é uma região vinhateira com pouca expressão, mas no copo é servido vinho de excelência, único, e não os hectares e mais hectares de vinha que caracterizam outras regiões, não menos importantes que a nossa mas seguramente diferentes.

JEL29 julho/agosto 2020
Paulo Veríssimo

Presidente da Associação Empresarial de Sintra

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