OPINIÃO Carmona Rodrigues

Indústria vinícola em Portugal

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Penso que para a maior parte dos portugueses o período que vivemos decorrente da pandemia do Covid-19 é o pior e mais difícil das nossas vidas, não só pelos condicionalismos impostos que implicam uma profunda alteração das nossas rotinas diárias, mas também pela viragem completa da actividade económica de tantos e tantos sectores. Como é sabido, tanto o consumo interno como as exportações têm um peso importante no Produto Interno Bruto, ou seja, na riqueza nacional. Agora, ambos têm registado reduções ainda há pouco inimagináveis, por vezes mesmo históricas. E esta realidade não se deveu à falta de confiança dos mercados, mas antes a uma quebra de consumo que foi imposta por esta situação de saúde pública.

De acordo com os dados do Instituto da Vinha e do Vinho, Portugal exportou em 2015 mais de 737 milhões de euros de vinho, o valor mais alto de sempre. Actualmente, as previsões para o corrente ano situam-se muito aquém destes valores. Não há dúvida que nos últimos anos Portugal soube profissionalizar e aprimorar a indústria vinícola por todo o País. A qualidade dos vinhos portugueses é hoje bem mais conhecida e reconhecida pelo mundo, em boa medida devido ao esforço dos industriais deste sector. A procura turística que Portugal conheceu nos
últimos anos veio também contribuir para uma excelente divulgação dos nossos produtos vinícolas, a par da nossa gastronomia. De alguma forma, esta “descoberta” do nosso País e dos nossos produtos veio compensar algumas dificuldades estruturais da nossa economia. O comércio local também beneficiou, merecidamente, desta situação. O vinho, só por si, é um produto de qualidade que deve ser consumido com moderação, mas não constitui muitas das vezes um fim em si mesmo enquanto bebida. O vinho está presente seguramente na actividade turística em geral, na gastronomia, em eventos de natureza cultural, científica ou mesmo desportiva, na divulgação e valorização do património, ou ainda na actividade diplomática e empresarial.

Em Sintra, existe há mais de cem anos a Denominação de Origem “Colares”, que compreende as freguesias de Colares, São Martinho e São João das Lampas. A carta de Lei de 1908, reconhecendo Colares como vinho de
tipo regional, foi o diploma que criou a região demarcada, património de elevado grau de raridade, senão único, em todo o mundo vitícola. Para além dos vinhos da Adega Regional de Colares, são bem conhecidos os “Viúva
Gomes” e os “Colares Chitas”, numa região caracterizada pela sua exposição a ventos salgados, nevoeiros matinais e solos arenosos com vinhas em pé-franco. Têm também surgido outros vinhos na região, igualmente com
grande qualidade e sucesso, como por exemplo os do Casal de Santa Maria. Enquanto aguardamos e trabalhamos para tentar sair deste período de crise, devemos esforçar-nos por dar atenção e apoiar todos os produtos tradicionalmente portugueses, em particular os vinhos da nossa região, que tão importantes são para a economia regional e para o prestígio internacional do nosso país.

JEL29 julho/agosto 2020
Carmona Rodrigues

Presidente Conselho Consultivo da AESintra

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