OPINIÃO Pedro Ventura

A Covid-19 e o emprego

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Quando surgiu a COVID-19 a economia portuguesa tinha recuperado, em larga medida, da crise anterior. No final de 2019, o PIB real tinha registado o seu 25.º trimestre de expansão ininterrupta. O emprego total tinha aumentado em cada trimestre desde o final de 2013. A taxa de desemprego estava no nível mais baixo desde 2002 (6,5 por cento). Os salários reais tinham crescido cerca de 2,7 por cento em 2018 e 2 por cento em 2019, depois de uma década de quase estagnação. A balança corrente, que, historicamente,
tinha apresentado valores negativos, permaneceu equilibrada ou ligeiramente positiva desde 2013. A pandemia deteriorou rapidamente este cenário.

Depois de uma queda significativa, em março, o indicador de sentimento económico da Comissão Europeia para Portugal caiu em abril para 66,9 porcento, o valor mais baixo alguma vez registado e muito abaixo da média de longo prazo de 100. O colapso estendeu-se a todos os indicadores de confiança estimados pelo INE e Portugal entrou efetivamente numa crise económica e social de consequências ainda imprevisíveis. Mas neste cenário, no desemprego quem são os que mais sofrem?

A vulnerabilidade do desemprego está fortemente relacionada com o setor de atividade e tipo de contrato ou ausência dele. Senão, vejamos: a incidência de contratos temporários é particularmente elevada na hotelaria, restauração e serviços administrativos e de apoio, onde estes tipos de contrato representam cerca de um quarto do emprego. Estas atividades são responsáveis por 60 por cento do aumento absoluto do desemprego registado em abril (valores homólogos).

Os contratos temporários são particularmente comuns entre os trabalhadores jovens: dois terços dos trabalhadores com menos de 25 anos têm relações de trabalho não permanentes (estágios, períodos experimentais, contratos a termo etc.), em comparação com um quinto das pessoas da faixa etária dos 25 a 49 anos e cerca de um décimo dos trabalhadores mais velhos. Muitos dos grupos mais afetados pela crise já se encontravam entre os desfavorecidos.

Por exemplo, a taxa de risco de pobreza dos trabalhadores com contratos temporários antes da pandemia era quase o dobro da média dos que tinham um contrato permanente. Isto deve fazer pensar no modelo económico e social que atualmente domina o nosso País. O plano de resiliência tem que ter em conta que não podemos perder a atual geração que se encontra a entrar no mercado de trabalho. Nem essa nem a que já lá se situa. Esquecer o mundo do trabalho e do emprego com direitos numa crise epidémica é hipotecar o futuro do País. E isso é inaceitável.

Pedro Ventura

Vereador da CMS

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