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“Antes de gastar baterias no online é preciso reinventar toda a operação”

Sónia Firmino
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EDIÇÃO32 – JEL – MARÇO/ABRIL 2021

Manias do Bairro é um restaurante situado nas Mercês que abriu portas em 2018. Associado da AESintra, este espaço entra no período pandémico com uma predisposição diferente para a redefinição de toda a sua operação online, razão que explica ter estado fechado apenas uma semana no primeiro confinamento. Desde então trabalham em take-away e home delivery com recurso às plataformas de entrega que operam na área.

Rodrigo Oliveira, diretor-geral da Zyrgon Network Group, empresa de marketing digital com representação em vários países, que integra o Manias do Bairro, diz que a escolha pelo espaço e conceito do restaurante foi resultado da aritmética que fez. Esta zona “é uma das que tem maior densidade populacional na Península Ibérica e é escolhida por muitos casais jovens que ali querem iniciar uma vida conjunta”. Além disso, “o Manias do Bairro instala-se numa estrutura já existente, completamente equipada e com uma renda mensal satisfatória”. O conceito do restaurante reflete “aquilo que as pessoas mais procuram; comer rapidamente”, por isso, a base do serviço são os hambúrgueres e as francesinhas.

Chegado março de 2020, como é que o Manias do Bairro encarou os novos modelos de negócio, que gradualmente foram sendo os únicos vigentes para a restauração? O Rodrigo adiantou-nos: “Fomos dos primeiros restaurantes daquela zona de Sintra a ser contactados pela UberEats, que na altura viu no espaço um parceiro para divulgação da própria plataforma e nos colocou os aplicativos gratuitamente. ”Na prática, antes de março de 2020, a Manias do Bairro já trabalhava o mercado online, ativamente, com recurso diário a todas as ferramentas digitais necessárias: “o take-away e o delivery já eram um complemento interessante antes da pandemia, e suponho que já segurava as pessoas em casa, afastando-as do movimento de massas, sobretudo ao fim de semana, em direção aos centros comerciais das redondezas. Segundo o proprietário, “o nosso concorrente direto não são os restaurantes instalados localmente, o designado comércio de rua, são as grandes superfícies”.

A predisposição para o mercado online, anterior à pandemia, “foi essencial à quase normalidade em que o Manias do Bairro funciona, apesar das contingências óbvias, porque apenas encerramos a operação de frente de loja, alavancando-a nos canais digitais”. Outra prova de que a pandemia não impactou duramente no negócio foi o franchising da marca durante a conjuntura pandémica, para uma unidade no Saldanha, em Lisboa.

Nem tudo são rosas, e até mesmo para o Manias do Bairro que estava pré-preparado para as vendas online, existiram momentos em que o Rodrigo confessou ter falhado por não ter conseguido dar resposta à enchente de pedidos, como aconteceu no Dia dos Namorados. A faturação é sensivelmente a mesma, mas os custos elevaram-se significativamente, 25% a 35% dos mesmos nas plataformas de entrega e outra fatia significativa com os materiais de packaging.

É importante salientar que o apoio do Estado não é feito na margem que o empresário perdeu, mas sim sobre a faturação que em grande parte dos casos não sofreu alteração: “perdi uma margem gigante e neste momento não consigo fazer face a todas as despesas, porém, como o Manias do Bairro está inserido num grupo empresarial o equilíbrio é mantido, mas sabemos que esta não é a realidade da maioria dos negócios que neste momento se debatem, fervorosamente, para sobreviver, pelo menos aqueles que ainda não cederam”.

Quando todas as atividades desconfinarem e já for possível regressar ao modelo presencial, na opinião de Rodrigo Oliveira, as tendências de consumo serão outras. As pessoas habituaram-se ao conforto de casa e mesmo que não troquem uma refeição à mesa com amigos e família, habituaram-se a pedir que lhes sejam entregues as compras, as refeições e até a atividade física – que até pode parecer um contrassenso -, tudo sem terem de sair de casa. Isto já não muda, e quem ainda não se adaptou às necessidades vai ter de adaptar-se. Vivemos mesmo tempos disruptivos.

Que tempos são esses e que alterações podem os empresários da restauração esperar – perguntámos nós: “temos um novo modelo de resiliência para o empresário que já foi empreendedor há muitas décadas. Agora, estamos a dizer a esses empresários que vão voltar ao ponto de partida, que vão ter de ser novamente resilientes, tendo como única garantia os filhos e os netos que sabem trabalhar com as novas tecnologias”, continuou, “é preciso reinventar toda a operação, que é o primeiro passo a dar, muito antes de gastar todas as baterias no online.

Os produtos vão ter de chegar com a mesma qualidade, o packaging tem de ser atrativo, o empregado que era de mesa, tem de passar a ser estafeta e na altura da entrega tem de ser prestável e profissional”. Depois de assegurada a operação e a logística envolventes, “há que criar toda a estrutura de marketing integrado – mesmo que estejamos a falar de um pequeno negócio – escolher uma zona de intervenção e começar a comunicar nas redes sociais disponíveis: facebook, instagram, criar um google business, um website e ter como assente que a divulgação unicamente orgânica nos meios digitais, não é suficiente para alavancar o negócio, há que investir e perceber que o food cost mudou para dar lugar a um novo ecossistema empresarial.

Para concluir a conversa, o JEL perguntou a Rodrigo Oliveira se acha que os negócios sobreviventes vão ficar mais fortes, quando a ressaca passar e a normalidade possível se instalar. O nosso entrevistado foi peremptório: “espero que pelo menos fiquemos todos mais inteligentes. Por todos entendam-se pequenas, médias e grandes empresas porque até os ‘grandes’ perceberam que há fatores não controláveis e não são só os juros bancários que influenciam os negócios. O Estado, as autarquias e todas as entidades de poder e ação local, têm de perceber que é vital apoiar a digitalização dos pequenos negócios através dos gabinetes de apoio ao empreendedor. Neste momento os empreendedores já não são jovens – os jovens já sabem como dar o salto – mas sim empresários acima dos 40 anos que precisam de apreender o tal modelo de resiliência empresarial.

Site Manias do Bairro

Página FB – Manias do Bairro

Sónia Firmino
Sónia Firmino

Diretora Jornal Economia Local (JEL)

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