Especial edição Parceiros

Task force de combate à carência de recursos humanos

JEL39 – Novembro/Dezembro 2022

A Escola ISCTE-Sintra nasceu para catapultar a transição digital em Portugal, potenciando os seus benefícios e minimizando os seus riscos, e está, provisoriamente, a funcionar na Heliodoro Salgado (Sintra). Na génese deste projeto está a ligação estreita ao mercado de trabalho, através da abordagem cooperativa com o tecido empresarial de Sintra. O JEL foi falar com Ricardo Paes Mamede, diretor da escola.

Por forma a percebermos qual o universo ativo do ISCTE-Sintra, peço-lhe, para início de conversa, que o apresente?
Neste momento o ISCTE-Sintra tem 185 alunos, número que ultrapassou expectativas iniciais e, nestas instalações, não podemos receber mais. Para o ano vamos ocupar outro espaço mesmo aqui ao lado o que nos permitirá ter 30/35 alunos por turma. Temos oito licenciaturas em funcionamento.

Quem são os alunos do ISCTE-Sintra?
Chegaram do concurso nacional de acesso ao ensino superior, mas também através de contingentes especiais: mais de 23 anos; de cursos profissionais e do estrangeiro. A maior parte dos nossos alunos reside no concelho de Sintra, mas é uma maioria relativa (cerca de 20%) logo a seguir temos Oeiras, Cascais e depois Lisboa. Estimamos vir a ter, em três anos de funcionamento, 650 alunos.

Projetam-se outros níveis de formação?
Pretendemos ter números equivalentes aos que estou a adiantar em cursos de 2º e 3º ciclo. Temos inclusivamente já aprovado um Mestrado numa parceria internacional com duas universidades estrangeiras, na área das tecnologias digitais na Saúde. Vamos apostar em formações na área das novas tecnologias de curta/média duração, dirigidas a profissionais adultos, executivos e técnicos qualificados, numa lógica de reciclagem de conhecimentos. Já estamos a desenvolver um trabalho semelhante em Rio de Mouro, na StartUp Sintra, com grande sucesso,
mas para aqui queremos um projeto mais abrangente. Estes cursos vão avançar antes do novo Campus da Portela de Sintra ser uma realidade.

Relativamente ao Ensino Profissional, que resposta é dada pelo ISCTE-Sintra?
É um público especial que queremos que perceba que esta é uma escola também para eles. Um dos nossos grandes objetivos é a valorização dos percursos escolares e em Sintra existem excelentes cursos profissionais, com bons alunos, impedidos de seguir os estudos devido ao problema do exame nacional de Matemática A. Como já acontece há alguns anos, também aqui em Sintra, o ISCTE oferece um módulo preparatório de Matemática para alunos que terminam a via profissional e para o contingente de alunos com mais de 23 anos. Para ingressar nas nossas licenciaturas não é necessário fazer o exame nacional de acesso da disciplina, porém, há que fazer uma prova específica. Se a avaliação do módulo preparatório for positiva nem sequer têm de fazer a prova. Somos uma das universidades com a obrigatoriedade de, em cada uma das licenciaturas que lecionamos, ter 4 vagas para alunos provenientes do Ensino
Profissional. O meu objetivo para Sintra é que um dia o ISCTE possa preencher todas essas vagas. Os alunos que acedem fazer este módulo preparatório são verdadeiros heróis.
Desde logo dão sinais de maturidade, resiliência e motivação, e estas são as características essenciais dos grandes profissionais.

Carlos Cardoso (Diretor da AESintra) e Ricardo Paes Mamede (Diretor do ISCTE-Sintra)

Porquê Sintra?
Queremos ter uma forte ligação com um dos concelhos mais jovens do país. Um dos grandes objetivos de vir para Sintra foi o de combater a elevada taxa de alunos que terminam o 12º ano e não prosseguem os estudos.

Na génese deste projeto educativo está a ligação ao mercado de trabalho: pergunto-lhe como está projetada esta ligação?
Desde o primeiro momento que este projeto foi construído em articulação com as empresas, porque todas as nossas áreas de estudo são de grande carência de recursos humanos. As nossas propostas formativas foram desenhadas em estreita colaboração com os potenciais empregadores, para percebermos quais as competências que estão em falta no mercado de trabalho. A ligação dos nossos alunos ao mundo empresarial – e não só – é feita desde o momento em que ingressam no curso. Assim que arrancou a atividade letiva começamos a preparar um trabalho de todas as licenciaturas de Tecnologias desta escola, sobre a transformação digital nas empresas e noutras organizações.

“as grandes empresas já nos estão a assediar em termos de recrutamento futuro dos nossos alunos.”

Na prática como é operacionalizado esse projeto entre os estudantes e as empresas?
Temos cerca de 30 empresas envolvidas e 35 grupos de estudantes. O projeto começa logo no 1º semestre do 1º ano da licenciatura, com os estudantes a conhecerem o mundo empresarial
através de um guião de perguntas informais que pretende apurar várias informações, nomeadamente, como é que as tecnologias digitais têm vindo a afetar a organização interna da própria empresa; como afetam a relação com clientes e fornecedores e como é que estes agentes empresariais perspetivam o impacto destas alterações trazidas pelas tecnologias digitais, no modo de funcionamento da sua própria empresa.

Quais são os objetivos mais imediatos desse programa?
Em primeiro lugar desmistificar a própria ideia de Empresa que para a maior parte dos alunos que chegam do secundário, é uma ideia abstrata, em segundo lugar o programa dá aos estudantes a hipótese de aplicarem o que aprendem em contexto prático e em diálogo com as empresas e, por último, este programa tem por objetivo contribuir para a reflexão da própria
empresa a estímulo dos estudantes. A partir do 2º semestre os estudantes têm uma cadeira de Projetos, onde se sugere uma ideia de negócio com o objetivo de trabalhar nela e chegar ao
3º ano com uma proposta completa que tenha valor de mercado ou valor social.

“queremos ter interlocução com as empresas e com projetos empresariais; queremos que os nossos alunos se habituem aos desafios do mundo.”

Esse contacto privilegiado que o ISCTE-Sintra parece ter com o núcleo empresarial do concelho, está circunscrito à relação direta com os estudantes?
Não, estende-se para fora desse ecossistema. O ISCTE e um conjunto de 20 parceiros empresariais criaram a Associação para as Tecnologias Digitais, com sede em Sintra, que pretende ser
a entidade participada para desenvolver e aprofundar a nossa relação com o mundo empresarial, mas também temos outras iniciativas já em curso que resultam desta interação com as
empresas, como são, por exemplo, os cybertalks regulares que têm trazido à nossa escola vários profissionais que nos falam sobre os avanços e recuos das tecnologias digitais, nomeadamente, na área da cibersegurança.

Para terminarmos, já é possível perceber o impacto da vinda do ISCTE para Sintra, junto do comércio e serviços locais? Havia uma grande expectativa, mas creio ser ainda prematuro fazer essa avaliação. É natural que ainda não haja reflexo porque os estudantes, na sua grande maioria, têm pouco dinheiro e Sintra está maioritariamente preparada para o Turismo. Os poucos estudantes deslocados, entre 40/50, arranjaram solução de alojamento nas proximidades e os que estão a viver em Sintra são muito poucos para de alguma forma conseguirem impactar na economia local. Esses estudantes ainda não sentem Sintra como “casa”, mas o processo será gradual e à medida que o mercado dirigido aos estudantes universitários começar a definir-se, com toda a certeza os últimos ficarão mais ancorados. Também me parece que do lado da oferta, o comércio e os serviços locais ainda estão em processo de adaptação, e nisso a Associação Empresarial de Sintra pode ser um parceiro de motivação e apoio. Por agora o impacto é menor do que aquele que pode vir a ser. Estou certo de que mais cedo ou mais tarde vai crescer em Sintra o tal mercado dos estudantes universitários.

 

Sónia Firmino

Diretora Jornal Economia Local (JEL)

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